Pegaram o São João pra Cristo
O último dia de viagem pelo Rio São João revelou o que já se esperava:
um rio sofrido, que se arrasta tentando sobreviver a décadas de descaso
e agressões. Foto: Danilo Padrin
expedição, é que o todo mundo achou por bem prestar sua cota de agressão
ao Rio São João.
O suplício começa logo após a sua nascente, com os velhos
agropecuaristas e suas práticas senis roubando ao rio o direito de
existir e seguir semeando a vida. É assustador constatar que quase
nenhum trecho do São João tem matas ciliares minimamente conservadas
com a feliz exceção do trecho em que ele percorre a Reserva Biológica Poço das Antas.
Sucessivas propriedades no percurso do rio consumiram suas margens,
substituindo as matas que o protegiam por pastos e plantações. Sem a
vegetação, o rio foi invadido por terra, areia e agrotóxicos trazidos
pelas chuvas.
João o seu esgoto e represando suas águas para o abastecimento de suas
populações. Esta última é uma função nobre do rio, mas o planejamento
antigo da barragem transformou-a em uma armadilha implacável contra a
biodiversidade do São João. Ali, não tem escada de peixes, uma forma de garantir a piracema – a
viagem dos peixes às nascentes para a reprodução. Outras espécies foram
afetadas justamente pela enorme área alagada pelo barramento.
Como se fosse pouco, o poder público achou por bem introduzir ali um
peixe carnívoro amazônico. Um predador agressivo mas muito apreciado
que atende pelo nome de Tucunaré.
No início dos anos 1970, o governo (militar) decidiu que os infindáveis
e sinuosos meandros do Rio São João não somente eram uma ameaça à saúde
das populações locais – pela suposta produção de mosquitos – como eram
um desperdício de terras!
Note-se que os mosquitos a que me refiro acima transmitiriam a malária e
e a febre amarela. Ocorre que, em Manaus, por exemplo, nenhum rio
foi "retificado" por conta da malária.
E a malária não acontece na cidade, mas em áreas recém-desmatadas...
Mas voltando à bacia do São João:
Como a região é muito plana,estas terras eram úmidas, alagadiças.
Resolveram, portanto, acabar com todo aquele pântano, cortando os
meandros com um canal em linha reta para drenar as áreas inundadas e
abrir caminho para a agricultura, usando o próprio rio como fonte de
água para irrigação.
mar invade quatro quilômetros do canal, tornando-o imprestável para a
irrigação. Isto jogou os sonhados projetos de agricultura ralo abaixo. Não há agricultura em redor do rio. O mosquito da dengue - este sim, urbaníssimo - continua
fazendo suas vítimas entre as populações. O único resultado concreto
desta aventura surreal foi um prejuízo incalculável para a natureza. Em busca de soluções -- Os parceiros envolvidos na I Expedição de Gestão
e Pesquisa ao Rio São João acreditam em gestão participativa e
na necessidade de ampliar a governança sobre os recursos hídricos.
Estão em busca de soluções. Formam um grupo experimentado e multidisciplinar
disposto a reverter (dentro do possível) a situação em que o rio foi envolvido. Depois da observação in situ, os participantes se reuniram e elaboraram
diversas propostas de ação, dentro de suas especialidades e de suas
instituições de origem. O resultado ainda será tabulado e normatizado, mas renasce a esperança
de que as gerações futuras possam usufruir, com sabedoria, de tudo o que
o Rio São João é capaz de oferecer.
E ele nos oferece vida.













