28 Jul 2010

Pegaram o São João pra Cristo

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O último dia de viagem pelo Rio São João revelou o que já se esperava:
um rio sofrido, que se arrasta tentando sobreviver a décadas de descaso
e agressões. Foto: Danilo Padrin

A impressão que se tem, ao fazer um balanço destes três dias e 120km de
expedição, é que o todo mundo achou por bem prestar sua cota de agressão
ao Rio São João.

O suplício começa logo após a sua nascente, com os velhos
agropecuaristas e suas práticas senis roubando ao rio o direito de
existir e seguir semeando a vida. É assustador constatar que quase
nenhum trecho do São João tem matas ciliares minimamente conservadas 
com a feliz exceção do trecho em que ele percorre a Reserva Biológica Poço das Antas. 

Sucessivas propriedades no percurso do rio consumiram suas margens,
substituindo as matas que o protegiam por pastos e plantações. Sem a
vegetação, o rio foi invadido por terra, areia e agrotóxicos trazidos
pelas chuvas.

As cidades também cobraram seu butim, despejando sobre as águas do São
João o seu esgoto e represando suas águas para o abastecimento de suas
populações. Esta última é uma função nobre do rio, mas o planejamento
antigo da barragem transformou-a em uma armadilha implacável contra a
biodiversidade do São João.

Ali, não tem escada de peixes, uma forma de garantir a piracema – a
viagem dos peixes às nascentes para a reprodução. Outras espécies foram
afetadas justamente pela enorme área alagada pelo barramento.

Como se fosse pouco, o poder público achou por bem introduzir ali um
peixe carnívoro amazônico. Um predador agressivo mas muito apreciado
que atende pelo nome de Tucunaré.

Tinha uma reta no meio do caminho – Mas as agressões não pararam por aí.
No início dos anos 1970, o governo (militar) decidiu que os infindáveis
e sinuosos meandros do Rio São João não somente eram uma ameaça à saúde
das populações locais – pela suposta produção de mosquitos – como eram
um desperdício de terras!

Note-se que os mosquitos a que me refiro acima transmitiriam a malária e
e a febre amarela. Ocorre que, em Manaus, por exemplo, nenhum rio
foi "retificado" por conta da malária.  

E a malária não acontece na cidade, mas em áreas recém-desmatadas...

Mas voltando à bacia do São João: 

Como a região é muito plana,estas terras eram úmidas, alagadiças.
Resolveram, portanto, acabar com todo aquele pântano, cortando os
meandros com um canal em linha reta para drenar as áreas inundadas e
abrir caminho para a agricultura, usando o próprio rio como fonte de
água para irrigação.

O “plano” foi estúpido e inútil. Com o caminho liberado, o
mar invade quatro quilômetros do canal, tornando-o imprestável para a
irrigação. Isto jogou os sonhados projetos de agricultura ralo abaixo.

Não há agricultura em redor do rio. O mosquito da dengue - este sim, urbaníssimo - continua
fazendo suas vítimas entre as populações. O único resultado concreto
desta aventura surreal foi um prejuízo incalculável para a natureza.

Em busca de soluções -- Os parceiros envolvidos na I Expedição de Gestão
e Pesquisa ao Rio São João acreditam em gestão participativa e 
na necessidade de ampliar a governança sobre os recursos hídricos.
Estão em busca de soluções. Formam um grupo experimentado e multidisciplinar
disposto a reverter (dentro do possível) a situação em que o rio foi envolvido.

Depois da observação in situ, os participantes se reuniram e elaboraram
diversas propostas de ação, dentro de suas especialidades e de suas
instituições de origem.

O resultado ainda será tabulado e normatizado, mas renasce a esperança
de que as gerações futuras possam usufruir, com sabedoria, de tudo o que
o Rio São João é capaz de oferecer.

E ele nos oferece vida.

28 Jul 2010

As lições de um rio que agoniza

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Descer o Rio São João nos dá uma aula de meio ambiente. Ora belo, ora
devastado, o rio segue dando lições de vida a quem se dá ao trabalho de
olhá-lo. Foto: Danilo Padrin


O rio São João parece saber o que sofre. E me arrisco a dizer que nos
manda uma mensagem, ao mesmo tempo resignada e otimista: olhe para mim
e entenda o que fazer e o que não fazer com a vida de um rio.

Descemos o rio a partir do mesmo ponto em que paramos ontem: um vilarejo
chamado Gaviões. E, a partir daí, ficamos, progressivamente, mais
preocupados. O São João simplesmente não tem matas ciliares. Suas margens, portanto,
se alargam, destruídas pela própria força do rio. O leito fica cada vez
mais raso. Os botes desciam arrastados e vagarosamente – e,
frequentemente, encalhavam – , tentando vencer os bancos de areia
resultantes de um assoreamento cruel.

É difícil entender que um agricultor ou pecuarista raciocine de forma
tão imediatista e irracional. Afinal. O rio está levando, há cada
ano, vários hectares de terra, consumindo, no seu caminho, áreas que
poderiam ser usadas em atividades menos prejudiciais embora lucrativas
no longo prazo. Este agricultor quer tanto produzir em cada pedaço da terra que acaba
por ter cada vez menos áreas produtivas.

Mas sempre há uma luz.

Ao entrar nos barcos, rumo à Represa de
Juturnaíba, entramos, também, na reserva Reserva Bilógica Poço das Antas.
E este é um trecho de encher os olhos. O rio perfeitamente encaixado em 
sua calha, profundo e vivo.

Descer o Rio São João, portanto, é uma aula de educação ambiental em si.
Ali, pode-se ver os resultados da ação humana – para o bem ou para o
mal.

E bem que poderíamos ouvir o rio, para o bem da natureza, para o bem das águas, para o nosso bem. 

Hoje (28/7), vamos percorrer o trecho final, a partir da barragem de
Juturnaíba até a foz. Já sabemos que o que vamos ver não é bonito, já
que temos um trecho enorme do rio que foi “retificado”. Mas isto é
história para amanhã...

27 Jul 2010

A descoberta de um rio

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Conhecer para cuidar é o motor da I Expedição de Pesquisa e Gestão da
Bacia do Rio São João. Ontem, dia 26 de julho, cerca de 50 pessoas
deram um passo neste sentido. Somos pesquisadores, biólogos,
veterinários, administradores, geógrafos, agrônomos, comunicadores.

Seguimos da Reserva Biológica Poço das Antas, a cerca de 150 km da
cidade do Rio de Janeiro, rumo à nascente do Rio São João, que fornece
água para toda a região dos Lagos, no Estado do Rio.

A realidade do Rio São João chega a ser dramaticamente emblemática: nasce no alto de uma serra linda, ao lado de uma carvoaria clandestina (crime e autor foram descobertos durante as visitas prévias à expedição).

Na medida em que desce a serra, o rio passa de cristalino a turvo, e tem
suas margens criminosamente agredidas, com matas ciliares extirpadas,
áreas úmidas drenadas.

O resultado é previsível: assoreamento do rio, desbarrancamento das suas
margens, elevação da calha... E nós mal começamos a exploração do curso
do rio...

Intervenção -- Nossa visita ao ponto de partida do Rio São João, no
município de Rio Bonito, rapidamente demonstra não somente a necessidade
de uma “intervenção”, como aponta uma possibilidade de solução para a
redução do conflito socioambiental em que vivem as famílias da região: o pagamento por prestação de serviços à natureza ou, mais pragmaticamente, Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

A lógica é incomodamente simples: os pequenos proprietários da região
têm poucas alternativas de renda para sustento de suas famílias. Por
outro lado, a população da região dos lagos e o seu próspero turismo
demandam por água de qualidade, tratável a baixo custo e encontram esta
fórmula na Represa de Juturnaíba, que acumula o São João para servir de
manancial para esta população.

Nada mais óbvio, portanto, que remunerar as populações que têm a
obrigação de cuidar destas águas – sob pena de multas e até prisão
– muitas vezes em detrimento de seu próprio sustento.

E uma alternativa relativamente simples começa a ser sonhada por
representantes do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São João, na
expedição: uma premiada iniciativa, o Fundo de Boas Práticas
Socioambientais em Microbacias pode contribuir para reduzir a
dependência, daquelas famílias , da caça ilegal, captura e venda de
aves, produção de carvão clandestino.

O Fundo destina recursos que premiam as práticas adequadas de manejo do
solo, agricultura e pecuária sustentáveis, conservação e gestão de
recursos hídricos, implementadas por pequenos agricultores instalados em
microbacias estratégicas.

Esta iniciativa, já premiada pela ONU, é uma forma criativa de PSA, e
tem o poder de conquistar corações e mentes para a causa da conservação
de recursos hídricos.

A mera constatação de que uma das soluções para a conservação das águas
de milhões de fluminenses passa pela solução de um problema social nas
cabeceiras de seu maior manancial já é uma grande conquista desta
expedição.

E estamos apenas começando.

Hoje, nossa expedição entra, literalmente, nas águas do São João. Seguiremos embarcados desde a localidade de Gaviões, onde terminamos nossa jornada de ontem, até a Barragem de Juturnaíba. Mas isso fica
para amanhã...

25 Jul 2010

A alegria de Sassá e o “rio total” de Heleno: histórias de pescadores

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No segundo dia de conversas com os habitantes do entorno da Lagoa de
Araruama, antes de partirmos para a Expedição propriamente dita, amanhã
(26/7), colhemos impressões e depoimentos de pescadores da Lagoa de
Araruama. A vida está melhor. Mas ainda é dura!
Na foto de Danilo Gomes, Sassá.

José Francisco dos Santos, conhecido como Sassá, anda satisfeito da
vida. Os peixes voltaram à Lagoa de Araruama. Tem corvina, xererete,
robalo, perumbeba, icarapeba. Tudo resultado do trabalho abertura do
canal que dá passagem à água do mar para dentro da lagoa.

“Olha, de peixe melhorou uns 80%”, contabiliza o Sassá, que assistiu a 
pesca minguar durante os anos em que a lagoa ficou quase isolada do mar,
pelo assoreamento, e apodreceu aos poucos, com a ajuda dos despejos de
esgoto in natura nos canais e diretamente no corpo d’água.

Durante aquele tempo, ele explica que conseguia pescar, mas era pouco.

Heleno Mota, pescador e “filho de Araruama”, como faz questão de frisar,
faz coro com seu colega de profissão. Para ele, a lida continua muito
difícil, embora a lagoa tenha melhorado muito ultimamente. “Continua
aquele cata cata do dia a dia do pescador. Vai ali, dá um ‘lancinho’, pega um, dois, três, quatro peixes”.

Rio total -- O “filho de Araruama” conta assustado sobre as chuvas
fortes que caíram sobre a lagoa, causando estragos que ele atribui aos
canais que vêm do centro de Araruama. “Chove lá, desemboca tudo aqui.
Isso aqui encheu tudo”, diz, apontando para a avenida em frente à praia.
“Virou um rio total” resume ele.

E chuva demais resulta em prejuízo. Heleno explica que, depois da
chuvarada, ninguém saiu pra pescar. Colegas seus perderam redes e
material de pesca, e ele mesmo quase perde a embarcação.

Tanto o assoreamento do canal da lagoa quanto o “rio total” de Heleno
resultaram de anos de descaso e de ocupações desordenadas da orla de
Araruama. Denise Spiller, do Consórcio Lagos-São João, organismo
responsável, em grande parte, pelas melhorias que agora se observam na
Região dos Lagos, explica que a força com que as águas vêm pelos canais é
causada pela falta de uma “zona de amortecimento”, papel que era
naturalmente desempenhado por áreas alagadas hoje soterradas e ocupadas
pelas edificações da cidade de Araruama.

Agora, a cidade tem que adaptar-se à realidade irreversível do
desaparecimento dos brejos. Mas sociedade civil e poder público já
buscam alternativas, com a recuperação de rios, brejos e canais que
possam prestar o serviço de amortecimento, drenagem das águas, para
evitar prejuízos materiais e sociais ainda maiores, caso eventos
extremos como o que se deu em abril tornem-se mais frequentes e
violentos, como prevêem os cientistas, em função das mudanças
climáticas.

De fato, é fundamental que se adotem novos paradigmas e que a natureza
deixe de ser vista como o entrave do desenvolvimento e passe a ser
reconhecida pelos serviços que presta ao homem. Serviços estes que não
são pagos e sequer contabilizados pelos seres humanos.

Até amanhã!

24 Jul 2010

Diário de Bordo: Seu Manoel viu o fundo da Lagoa de Araruama

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A Lagoa de Araruama está se recuperando. Mas é preciso pensar num
futuro de mudanças climáticas para garantir a volta dos tempos do Seu
Manoel.

Seu Manoel Araujo nasceu em Araruama, estado do Rio de Janeiro. Viveu
todas as mudanças da lagoa que dá nome à cidade. Transformou a casa de
veraneio, construída à beira da lagoa há mais de trinta anos, em uma
pousada. Tira dali parte do seu sustento. Seu Manoel conta que, quando menino, atravessava a lagoa a pé. “A gente ia com a água pelos joelhos, até um canal – uma parte mais funda – que atravessávamos a nado. Chamávamos o outro lado do canal de ‘a coroa’, porque o acúmulo de conchas vinha quase até a flor da
água. A lagoa era cristalina. Gente podia ver os camarões, os
peixinhos...”.

Desde que seu Manoel nasceu, muita coisa mudou.

A lagoa não é mais cristalina, não permite visibilidade nem travessia a
pé. “Naquela época, eles dragavam a lagoa para colher conchas, que eram
moídas, aqui perto, para compor ração de galinhas. Mas isso não foi o
problema. A instalação de uma grande indústria aqui não permitia que as conchas
se reproduzissem e elas acabaram. Foi aí que a lagoa começou a morrer.
Depois veio a poluição, o crescimento da cidade”.

O depoimento do Seu Manoel é importante. Outros habitantes da cidade
assistiram ao mesmo fenômeno e têm saudades do tempo em que a lagoa era
segura e cristalina, embora, felizmente, as coisas estejam mudando para
melhor.

A organização em torno do Consórcio São João-Lagos fez com que o governo
local investisse no desassoreamento do contato da lagoa com o mar e no
tratamento da água ali despejada. Com isto, os camarões voltaram, a
pesca cresceu e o turismo volta a se fortalecer em torno da lagoa.

Ainda há muito o que fazer para que a lagoa de Araruama volte a ser o
que era, e é importante que sejam consideradas as mudanças climáticas e
o efeito de eventos extremos como secas e chuvas torrenciais. O que é
preciso fazer para minimizar seus efeitos? Como vamos nos preparar para
isto? Nos próximos dias, vamos documentar alguns passos que podem nos oferecer
alguma luz. A expedição começa, a rigor, na segunda-feira. Mas neste Domingo, já
estaremos em campo, conversando com pessoas, registrando imagens.´

Acompanhe!

23 Jul 2010

WWF-Brasil participa da Expedição de Pesquisa e Gestão no Rio São João, no estado do Rio de Janeiro

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Um diário de bordo da viagem será postado no site do WWF-Brasil para acompanhamento pelos internautas.  O WWF-Brasil viaja a convite dos organizadores da Expedição, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), APA da Bacia do São João e Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São João.
 
O WWF-Brasil acompanhará, entre 26 e 28 de julho, a I Expedição de Pesquisa e Gestão da Bacia do Rio São João, que será realizada em conjunto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, APA da Bacia do Rio São João e o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São João.

A expedição tem por objetivo realizar um diagnóstico da bacia desde sua nascente até a foz, para identificar vulnerabilidades e potencialidades sociais e ambientais, além de  temas para pesquisa de forma a aprimorar a gestão ambiental da região.  De posse destas informações, os próprios órgãos participantes poderão discutir e propor medidas para gestão do território – inclusive com vistas à adaptação às mudanças climáticas.

Com apoio das prefeituras e de outras instituições ao longo da bacia, a expedição é, para o WWF-Brasil, uma oportunidade única de participar do mapeamento de necessidades de ações de adaptação às mudanças climáticas naquela região, onde a ONG trabalha desde 1999, em parceria com o Consórcio Intermunicipal Lagos-São João, especialmente para ações de conservação e gestão dos recursos hídricos.

Recentemente, foi criado o Grupo de Trabalho (GT) de mudanças climáticas do Comitê, que irá desenvolver uma estratégia de mudanças climáticas para a bacia, começando pela adaptação, e os resultados da expedição irão contribuir significativamente para esse objetivo.

Além deste blog, serão capturadas imagens e depoimentos para a realização de documentários sobre a região da bacia do São João e dos lagos com o objetivo de disseminar tal conhecimento para a população local.

Realização:

Apoio:

Gadelha Neto

Jornalista, assessor de comunicação do WWF-Brasil, irá acompanhar a expedição pelo Rio São João e deixar aqui, diariamente, seu relato.